Sobre a estrutura do suspense

“Não há terror no explosão, apenas na expectativa disso.”

O suspense é uma emoção gerada quando uma cena ou evento evoca uma pergunta narrativa levantada em determinado momento anterior na história. Se a questão for bem estruturada, terá alternativas claramente opostas, que ao serem atualizadas em um resultado, ou seja, a resposta para pergunta, conclui a cena ou sequência de suspense. O suspense, como o próprio nome aponta, é uma emoção intervalar, ligada a algo que se mantém em suspenso, em adiamento. O que é adiado? A resposta, claro. O suspense é essa emoção que se dá nesse tempo entre a pergunta e a resposta.

Sobre o que foi dito no parágrafo anterior, Hitchcock, o mestre cinematográfico do suspense, deu um simples e ótimo exemplo, o famoso exemplo da bomba debaixo da mesa. Distinguindo suspense de surpresa, ele disse:

“Agora estamos tendo uma conversa muito inocente. Vamos supor que haja uma bomba debaixo desta mesa entre nós. Nada acontece e, de repente, “Boom!” Acontece uma explosão. O público está surpreso, mas antes dessa surpresa, assistiu uma cena absolutamente comum, sem nenhuma conseqüência especial. Agora, vamos tomar uma situação de suspense. A bomba está debaixo da mesa e o público sabe disso, provavelmente porque viu o anarquista colocar a bomba lá. O público está ciente de que a bomba vai explodir à 1h e há um relógio no cenário. O público pode ver que falta 15min para 1h. Nessas condições, a mesma conversa inócua se torna fascinante porque o público está participando da cena. O público está ansioso para avisar os personagens na tela: “Você não deveria estar tratando de assuntos tão triviais. Há uma bomba abaixo da mesa e que está prestes a explodir!” No primeiro caso, demos ao público quinze segundos de surpresa no momento da explosão. No segundo, fornecemos quinze minutos de suspense. A conclusão é que, sempre que possível, o público deve ser informado. Exceto quando a surpresa é uma reviravolta, isto é, quando o final inesperado é, em si, o ponto alto da história”.

O suspense na vida real não é apenas antecipação, é uma antecipação onde algo desejado ou importante está em jogo. Quem nunca sentiu suspense ao ir verificar sua nota de uma prova para o vestibular (ou Enem), em uma entrevista de emprego ou ao convidar uma pessoa para um encontro, por exemplo? E essas situações, por apresentarem um resultado incerto, envolvem certa urgência psicológica. Na ficção não é diferente, esses elementos do suspense cotidiano continuam operando. O exemplo de Hitchcock sobre a bomba embaixo da mesa funciona porque a própria sobrevivência dos personagens está em jogo. E ora, a vida é algo muito importante. A urgência psicológica está no fato de que, como os personagens não sabem que há uma bomba embaixo da mesa, há uma grande chance de que a bomba exploda antes que percebam a situação. A pergunta que o público faz, simplificadamente, é: “Eles conseguirão sobreviver ou a bomba vai explodir ?”

Os objetos do suspense (algo desejado ou importante e a incerteza) são reduzidos a alternativas opostas de classificações específicas. O resultado real, a alternativa de resposta dada ao final da cena, é irrelevante para o suspense, o que interessa é a combinação de “moralidade” e “probabilidade” das alternativas apresentadas como respostas para a cena ou evento que gerou a pergunta.

(Para saber mais sobre os conceitos e técnicas do suspense, clique aqui e veja o livro A Técnica da Ficção)

No conto The Most Dangerous Game, uma clássica história de suspense de Richard Connell, o personagem principal, Rainsford, cai do navio em que viajava, perto de uma ilha, denominada nos mapas como Ship Trap Island (que poderia ser traduzido como Ilha Armadilha de Navios), devido às histórias e boatos sobre navios que se aproximam dela e fatalmente naufragam. Rainsford consegue chegar até à ilha e descobre que é propriedade do General Zaroff, um excêntrico caçador. Zaroff o acolhe, para logo depois revelar que Rainsford terá que jogar por sua vida, o jogo mais perigoso do título. Rainsford será solto na selva com apenas uma faca e um pouco de comida, e será, em seguida, caçado por Zaroff. Se conseguir sobreviver durante três dias, o General o deixará ir. Rainsford parece ter poucas chances de sobreviver à caçada humana, pois está em uma situação de extrema desvantagem. Zaroff é um caçador experiente, tanto de animais quanto de homens, tem um assistente brutamontes, obediente e tão amoral quanto o chefe, tem cães de caça ferozes, armas de fogo, e conhece muito bem a ilha. A narrativa estabelece de maneira bem clara que o esporte de caça a seres humanos é moralmente repulsivo. “Rainsford conseguirá sobreviver?” é a macropergunta ou questão dramática maior que move a história. Nessa pergunta há a expectativa de um resultado moralmente bom, porém altamente improvável de que ele saia vivo, e a possibilidade moralmente má e muito provável de que Zaroff o mate.

“É indispensável que o público seja informado de todos os fatos envolvidos. Caso contrário, não há suspense.”
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