O Jogo

por Gustavo Cruz Jorge

Cap. 1 (Início) — O grupo, uma nova amizade

Foi em um dos encontros do grupo de domingo que tive a ideia do plano insano e insidioso para levar Michele para cama, do qual tantas consequências desastrosas e trágicas decorreram.

Michele, a garota indomável dos cabelos castanhos cacheados chegando até a cintura, dos olhos híbridos, um azul e o outro com a íris amarela e verde, com seu shortinho curto que deixava exposta as pernas bronzeadas e com seus pulinhos quase infantis,  sorrindo quando algo a agradava e excitava, confiante, segura, indomável…quase arrogante seu jeito indiferente por qualquer um que não desejasse, no entanto, isso era notório, levava homens em sua casa após uma balada ou um encontro. Morava sozinha, o aluguel custeado por seus tios de criação e os entretenimentos pessoais pagava  com o dinheiro de um emprego  que conseguiu em uma empresa de telemarketing  mal chegara à maioridade.

Os encontros de domingo aconteciam em sua casa, um apartamento pequeno, de um quarto, sala, banheiro e cozinha, mas que era mobiliado com o requinte simples e sem exageros da inquilina. O grupo era de cinco: três mulheres e dois rapazes se reuniam nas tardes do último dia da semana para se divertir e passar o tempo com jogos de tabuleiro, cartas e, ocasionalmente,  apenas conversar e beber vinho. Cássio, cínico e esperto, tinha uma invejável facilidade com as garotas da faculdade, “pegaria” mais da metade delas até o final do curso se não fosse ter começado um namoro com Débora, séria e tímida, o oposto de Cássio em todos os aspectos. Cintia e Mateus também formavam um casal, ela extrovertida, falante, ele outro cínico, amigo de Cássio, um cínico porém um pragmático, seus instintos eram menos hedonistas que os do amigo. Ambos aproveitavam a vida, no entanto, sendo que Mateus era um pouco mais comedido e voltado para o futuro profissional, mas ambos tiveram a sorte de receber os atributos, qualidades e recursos de soberbos jovens de classe média, sorte sempre acompanhada por certa arrogância. As garotas não estavam em situação diferente, belas, jovens, atraentes, com suficiente cultura e inteligência, formavam com os rapazes um grupo de jovens recém entrados nos 20 anos, todos na frescura da juventude e do entusiasmo que as despreocupações com o futuro permite…arrogantes, com muito amor-próprio e um certo egoísmo . Aos meus olhos, eles eram de um patamar superior, constituíam uma espécie de elite.

Claro que minha descrição desses cinco colegas de classe é tendenciosa, tenho total consciência disso, tendenciosa na intensidade dos adjetivos talvez, mas de modo algum falsa, um pouco imprecisa, quem sabe…toda aquela sagacidade, desembaraço, e a autoestima e confiança como se sentissem que eram os donos do mundo, ou que o mundo estava ali para eles…Não importa, uma história tem que ser contada de alguma perspectiva. Pode-se perguntar, por que, então, se os desprezava tanto, fazia eu parte do grupo ? Por que convivia com eles ? Caro leitor, eu não os desprezava, não completamente, não apenasmente, eu os invejava, desejava ser como eles, estar incluído nesse patamar da sociedade. E verdade seja dita, minha participação nos encontros de domingo foi tardia, eu não era íntimo deles e só comecei a participar dos jogos através do convite de Mateus, com quem passei a desenvolver uma certa amizade nas aulas de Estatística. A matemática, interesse comum que partilhávamos, foi o que me possibilitou o ingresso naquele mundo pelo qual ansiava. Nada mais improvável, certo? E foi, entretanto, a matemática que possibilitou tudo, meu ingresso naquele grupo fechado e também a ideia que seria o fim trágico daqueles encontros e daquela amizade.

Mas se a ideia foi possibilitada pelo interesse por teoria dos jogos, não veio calculada, chegou como um relâmpago, uma lâmpada que se acendeu ao ver as três ninfas sedutoras posicionadas ao redor do tabuleiro. Nesta tarde, cheguei atrasado no que  devia ser o sétimo ou oitavo encontro do qual participava. Toquei a campainha do apartamento. Um murmúrio se fez ouvir do outro lado da porta. A chave girou e a porta foi aberta, com Mateus me recebendo estampando no rosto um sorriso simpático:

— Está atrasado, achamos que você não vinha. Já começamos a jogar.

— O ônibus atrasou…vocês pediram para trazer umas latas de cerveja, mas acabei trazendo  uma garrafa de vinho.

Do outro lado da sala veio a voz descontente de Michele:

— Vinho? Você nunca traz o que eu digo prá trazer…estava com vontade de tomar uma cerveja.

— A partida já está terminando – disse Mateus – senta aí e espera, daqui a pouco a gente começa outra.

Peguei uns copos na cozinha, abri a garrafa de vinho e fui me juntar aos outros na sala. Enquanto colocava a bebida nos copos, a visão das três garotas entretidas no jogo me tentou ferozmente, e a idéia que deveria me permitir gozar dos encantos de Michele, espocou no vórtice da visão tentadora que eram aquelas deliciosas garotas. Em volta do tabuleiro no chão, Cintia comentava cada jogada, o rosto redondo, a boca sorridente vermelha de batom sempre um pouco borrado, a mão pequena e delicada alisando, acariciando as próprias pernas perfumadas e brancas como leite, mania da qual ninguém parecia se aborrecer ou reclamar. Ao seu lado Mateus voltara a se sentar, parecia estar ganhando a partida e debochava de quando em quando. Débora permanecia numa posição mais rígida, sobre os joelhos como uma japonesa, mexendo nos óculos que davam-lhe um arzinho provocante e intelectual, a blusa leve de verão e larga alguns números maior assentava sobre os seios e deixavam no pano, por alguns instantes,  a forma gravada em relevo do biquinho, denunciando a ausência do soutien. A cada jogada se inclinava para mover o peão e a gola larga expunha aos meus olhos famintos a pele macia do busto e o róseo da auréola. Cássio sempre sentava no sofá, sem se importar com o esforço de ter que se esticar quando era sua a vez, e parecia não se importar também com a nudez intermitente que os movimentos de sua namorada exibiam. Terminando o semi-círculo estava Michele, estendida no chão de azulejos apoiada sobre um braço, como uma sereia tomando sol deitada sobre a rocha. O shortinho curto não cobria as pernas expostas à visão mas proibidas ao toque, e suas coxas  e a penugem fina, suave, dourada de praia  enlouquecia minhas mãos de maneira selvagem. Com o braço livre movia seu peão e parecia entediada. A vontade de tomar cerveja não a impediu de aceitar o vinho tinto, que todos tomaram sem limitação ou preocupação.

Cap. 2 ( casa 1 ) – Uma idéia infame

Quando a garrafa estava chegando ao fim, e todos embriagados e alegres conversavam, os olhos cintilantes de ebriedade, cortei a atmosfera com a pergunta :

— O que vocês acham de um jogo mais interessante ?

—Nem ouse dizer xadrez, meu nerdzinho — disse Michele beliscando-me no queixo. Seu corpo ondulava devido ao efeito da bebida, e às vezes apoiava a cabeça no próprio ombro com os olhos fechados, entorpecida numa sonolência vaporosa.

— Nada de xadrez, um jogo bem mais perigoso, bem mais excitante…

— Onde está querendo chegar com esse papo ?, interrompeu Cássio, desconfiado, recolhendo as peças sobre o tabuleiro.

— Aposto que é Strip Poker !, falou Cintia, que estava deitada, o corpo abandonado no chão, rindo e certa de ter adivinhado o que eu estava pensando. Nosso novo amiguinho quer nos ver tirar a roupa…

Mateus estava sério, parecia estar achando que Cintia estava solta demais, se remexendo, retorcendo no chão como uma serpente, sorrindo lubricamente prá ninguém, a não ser pelo próprio prazer do corpo alcoolizado e feliz. Débora estava ouvindo, tentava ao mesmo tempo manter o equilíbrio do mundo que girava e a atenção na conversa.

— Deixa prá lá —eu disse…e completei intencionalmente : Nenhum de nós teria coragem mesmo.

— Coragem prá quê ? perguntou Michele.

— Bobagem !, respondi.

— Não é Strip Poker ?!, Cintia perguntou se erguendo sobre os cotovelos e cessando sua dança horizontal de naja.

— Agora diz o que é — quase disseram em coro.

Persisti mais um pouco na esquiva e na instigação disfarçada, sem me prolongar demais, para não arriscar fazê-los perder o interesse. Pausei, olhei para cada um e todos, e depois de um momento de silêncio e suspense, falei :

— Querem mesmo que eu diga ?

— Prá mim tanto faz — retorquiu Mateus, que já estava uma fera, irritado com Cintia.

— Fala ! antes que o assunto encha a paciência…disse Cássio.

Michele e Cintia estavam com os olhos brilhando de curiosidade. Débora lutava contra a embriaguez e a blusa que insistia em resvalar pelo ombro, ameaçando desnudar seu seio.

— Pensei num jogo, um jogo de verdade, onde a aposta é mais alta, onde a aposta é aposta de verdade.

— Que tipo de jogo ?

— Um jogo sexual.

— Não disse que era Strip Poker !

— Um bem diferente.

— Jogo sexual, sei… — Michele sorriu com ironia.

Aproveitei que estavam todos atentos e continuei:

— Funciona assim : Pegamos duas caixas de papelão. Numa colocamos os nomes das garotas e na outra o nome dos rapazes. E adicionamos em cada caixa um papel em branco, cujo valor é zero. Cada um escolhe um número e jogamos dois dados, duas vezes, uma vez para as meninas, e outra para os meninos. A garota que escolheu o número que cair vai à caixa dos rapazes e pega um papel, que pode conter um nome ou o papel em branco. Se pegar um nome, vai até uma terceira caixa, que contém situações, ou ações, prendas como beijar, lamber, etc…vocês entenderam o espírito da coisa ! A mesma coisa os rapazes. E aqueles que ganharam os papéis, têm direito de fazer o que está escrito com o sorteado.  Ou seja, apenas quatro de nós se divertirá no dia, o jogo só é jogado uma vez por domingo, claro, supondo que todos queiram repetir o jogo, certo ? — eu disse sorrindo, tentando ser o mais descontraído possível.

— Isso é ridículo ! Eu devia te arrebentar a cara só por sugerir essa palhaçada — berrou Mateus, muito nervoso.

Cintia começou a rir, o que enfureceu ainda mais seu namorado. Mas bêbada, ria, rolava no chão e ria. E também dizia entre o riso : Mas nunca que jogo isso, hahahaha…nem pensar ! Cássio estava quieto, me olhava com um sorriso cínico e astuto, e parecia esperar as coisas se acalmarem para dizer algo. Débora estava meio assustada, não sei se com a explosão intempestiva de Mateus ou com a situação toda, mas ao mesmo tempo arfava, e eu suspeitava que estava, também, excitada. Michele estava calma, segura de si, e disse :

— Acho que já deu por hoje, né…já está tarde, está todo mundo alterado pelo álcool, e amanhã é segunda, dia de acordar cedo.

— Não estou alterado pelo álcool, estou alterado pela ideia desse safado !—berrava Mateus.

—Não importa, já é hora de irem prá casa, e eu de ir dormir. Fica calmo Mateus, ninguém vai jogar isso, foi só uma ideia de bêbado dele.

Saímos todos suspensos numa atmosfera carregada, o clima de alegria havia sido arruinado, e exceto Michele e Cintia, ninguém mais se despediu de mim. Voltei para casa pensativo. Cássio fizera menção de dizer alguma coisa, mas se conteve e foi embora calado. O que estaria em seu pensamento ? Teria vislumbrado ou mesmo descoberto meus planos ? Com Mateus não precisava me preocupar, cálculos de probabilidade e teoria dos jogos eram possivelmente as áreas da matemática pelas quais ele menos se interessava. Mas e aquele sorrisinho de “Tô te sacando, cara !” no rosto de Cássio ? Outra coisa me preocupava também. Se eu havia aumentado minhas chances nos dados com o sete, e é o número que eu escolheria, antecipando-me aos outros, havia também diminuído as chances com o papelzinho branco, não apenas para mim, mas a chance de um resultado desejado qualquer, para todos. No entanto, tomei a decisão de incluir essa variável, confesso que impulsivamente, com o objetivo de tornar mais atrativo e entusiasmante para eles a ideia do jogo. Eu sabia que a ideia não poderia ser de uma orgia, eles nunca aceitariam, era preciso instigá-los com um jogo, uma situação excitante e interessante. De qualquer modo era um jogo, era um risco, mas uma aposta mais certa de levar Michele para o quarto e desfrutar de seu corpo do que flertar com ela, chamá-la para sair ou mesmo dar tempo ao tempo. Seu interesse em mim, assim como na maioria dos homens que a viam na universidade quase todos os dias da semana, era simplesmente nulo. E mesmo assim, passava pelos corredores levando olhares de lobo.

A semana foi passando sem grandes incidentes, e eu cumpria minha rotina, esperando. Uma ideia é como uma erva daninha, e eu esperava que essa fosse tomando a imaginação deles como a hera vai tomando conta e se infiltrando numa mansão abandonada.

O fim de semana chegou e não tive notícias do grupo. Mateus não havia ido às aulas de matemática. Sem procurar, sem forçar encontros, mas também sem evitá-los, não os vi durante toda a semana. Veio o sábado, esperei que o telefone tocasse, confirmando o encontro do dia seguinte, mas nada. Domingo também passou.  Começou a outra semana, os dias foram passando. Até que na sexta feira, de pé na fila da cantina, sinto cutucarem-me no ombro. Viro-me e vejo Mateus sorridente e receptivo.

— Como tem passado, meu caro ?

—Bem, e você ?

— O de sempre.

— E o pessoal ?

— Mas você é muito doido mesmo, hein ! Que ideia aquela ! Não recomendo que tome vinho ou outra bebida alcóolica…— e riu da própria piada. Eu forcei um sorriso, sem graça, embaraçado, e triste, pois pelo que parecia, a ideia do jogo não tinha dado em nada, e haviam considerado que tinha sido uma bobagem de alguém não muito resistente à bebida.

— Não teve nada na casa da Michele no último fim de semana ?

— Ter teve, mas não chamamos você. Calma ! Não precisa ficar assustado, o pessoal só queria conversar sobre aquele dia.

— Não me expulsaram do grupo, então ?

— Não. E estão te esperando no banco lá no pátio perto da estátua. Vim te buscar.

— Mas o intervalo já vai terminar, a gente tem aula de matemática.

— Meu caro, se aquela sua ideia era séria, você vai querer faltar a próxima aula.

Cap. 3 ( casa 2 ) – Conversa no pátio

Saímos da cantina e nos dirigimos ao pátio. Atravessando os corredores, o prospecto de possuir Michele exaltava meus ânimos novamente. Chegando no pátio, vi o pessoal sentado e empoleirado no banco de cimento, junto à estátua. Enquanto esperavam, conversavam. Eu e Mateus fomos nos aproximando até que nos viram e interromperam a conversa, esperando que terminássemos de atravessar o terreno. Os outros alunos já se dirigiam para as salas, o pátio esvaziava. O grupo esperava sob a luz tênue e alaranjada do poste, naquele recanto envolto em sombras, digno palco iluminado como por um holofote, separado do resto do mundo, para a conversa muito especial que deveria se seguir, e que decidiria o destino do meu desejo.

— Então meu nerdzinho tarado, como passou a última semana ? — cumprimentou Michele, sorrindo, sentada e encolhida com as mãos comprimidas entre as coxas, dando-me a impressão de menos autoconfiança do que eu estava acostumado a perceber nela.

— A gente estava conversando sobre aquela ideia maluca que você teve aquele dia —disse Cintia, que alisava as próprias pernas mais ansiosa e sôfrega que o normal — Na confusão, ninguém entendeu direito como é o jogo.

— Supondo que a gente tente…eu, pelo menos não concordei com nada —disse Débora com um gesto de desdém — Quais as situações ou ações que o sorteado teria que se submeter ? É tipo verdade ou consequência ?—desdenhosa, porém curiosa, ao que parecia, pensei com cinismo e ironia.

— É, não deixa de ser tipo verdade ou consequência. E imaginei as consequências sendo decididas pela sorte numa roda giratória, como na roda da fortuna, mas uma caixa com papéis deve dar. Menos dramático, mas acho que tão eficiente quanto.

— Roda da fortuna…seria uma grande fortuna prá você se esbaldar com nossas mulheres ! disse Cássio num tom sarcástico.

E num relance entendi o que se passava em sua cabeça no dia da proposta, qual era o pensamento astuto que conteve. Eles estavam interessados, as sementes deram frutos, isso era óbvio. Estavam também hesitantes, e o lance que decidiria se os frutos seriam colhidos, e comidos, dependia justamente do que chamamos, em Justiça, de “igualdade”. O que todo aquele que se coloca na situação de jogador espera ter, igualdade de chances, e também igualdade de termos. Ora, antes que tudo fosse pelos ares, que a colheita fosse abandonada, antes que Cássio atrapalhasse tudo com a preocupação que todos deveriam ter inconscientemente ( a igualdade de termos ), mas que só ele tinha mais presente e intensa, eu já me antecipava…

— Fortuna sua e do Mateus também, que dependendo do destino, vão se esbaldar, não é isso que disse, esbaldar ?, vão se esbaldar com as namoradas um do outro ou com a minha.

A última palavra teve seu efeito, se a consequência desse efeito me seria favorável, isso era uma outra questão.

— Então você está namorando ? Tem uma namorada ? — perguntou Michele, ecoando a surpresa de todos.

— Tenho.

— Quem ?

— Vocês não conhecem, ela se chama Adriana. Não é daqui, e faz faculdade em outra cidade.

— E você falou prá ela desse jogo ?

— Ainda não — eu não precisava facilitar muito as coisas prá eles, e essa reviravolta seria bom para meus propósitos.

— Pois se decidirmos jogar essa maluquice, ela terá que participar. Senão meu caro, você está fora. Acho que todo mundo concorda comigo nesse ponto.

Maluquice ou não, estavam todos envolvidos, e fascinados numa ideia e num temor que os empolgava e estremecia.

— Vou falar com ela. Até amanhã já tenho a resposta prá vocês.

— Calminha apressadinho ! disse Cássio. Não vai ser nesse domingo que você vai ter a oportunidade de se saciar com a Débora. A Michele vai viajar, eu tenho aniversário prá ir, quase todo mundo tem compromisso esse fim de semana.

— Não tem problema, é bom até que vou ter mais tempo prá contar prá Drica e convencer ela.

— Você é muito doido ! — Cássio suspirou sério, virando as costas e acendendo um cigarro.

— Se formos justos, todos nós aqui somos, disse Mateus, parece que já passamos da fase de deliberação e decidimos jogar “O Jogo”. Estamos apenas acertando os detalhes, é o que me parece.

— Tem um detalhe que ninguém parece ter notado — interveio Cintia. A Michele não tem namorado.

Era a reinvidicação da igualdade de termos falando novamente. O que não deixou Mateus nada contente. Sua fisionomia transfigurou-se, ficou vermelho de raiva e de ciúme :

— Você devia calar a boca !

— Desde quando é assim que fala comigo ?! — Cintia replicou indignada.

— Pessoal, se for prá brigarmos, então melhor parar por aqui — Michele disse, tentando acalmar os ânimos.

Cintia pegou Mateus pelo braço e se afastou alguns metros do grupo para conversar privadamente com ele. Esperamos em silêncio. O medo de que agora fosse o ciúme e o senso de propriedade de Mateus que atrapalhasse tudo fazia-me transpirar. Aqueles minutos pareciam anos, o tempo dilatava einsteinianamente, como num terrível pesadelo. Sentia que ia tudo a perder. Eu apostara e perdia para aquilo que torna os jogos mais interessantes e ao mesmo tempo mais desesperadores e imprevisíveis : o elemento humano. Não se enganem, para mim não era apenas um jogo, não sou um psicopata. Eu gostava, tinha genuíno afeto por aqueles recentes amigos. Mas eu também ardia febrilmente por Michele, estava ávido por possui-la. E mais uma vez essa possibilidade ficava em suspenso, a se decidir pelo resultado da discussão que Cintia e Mateus estavam tendo próximo dali, mas longe de nossos ouvidos. Eu os observava fixamente, ela falava ríspida com ele, ele parecia nervoso, impaciente, porém escutava. A discussão se alongava e eu não pressentia um final feliz para mim. Eu tentava me consolar e diminuir a ansiedade com o pensamento de que, então, ao menos fosse feliz para eles o final da discussão. Claro, inútil essa tentativa de suplantar o desejo com o sacrifício. Mas me fazia sentir um pouco melhor, menos culpado, menos canalha.

— Eles estão voltando — anunciou Michele. Tá tudo bem ?

—Tá sim, a gente conversou. Não sei se vamos participar, ainda vamos decidir.

— Decidiram que ainda vão decidir ? — Cássio disse com ironia. Cintia não se irritou, conhecia o jeito de Cássio, e a seriedade de seu namoro era mais importante que o sarcasmo do amigo.

— Vamos conversar direito e decidir. Temos mais de uma semana ainda, não é ?

Sim, mais de uma semana, uma eterna semana.

Continua…

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